Conto: Sussurros no Paraíso

PDF sussurros no paraíso - nana pauvolih

Sussurros no Paraíso tem como protagonista Rebeca, irmã da personagem Isabel, do livro "PECADORA", publicado em 2017 pela Editora Planeta.

Sussurros no Paraíso
Nana Pauvolih







Capítulo 1


REBECA

Eu parecia ouvir a voz de Gilberto Gil na minha cabeça: “O Rio de Janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro continua sendo, o Rio de Janeiro fevereiro e março ... Alô, Alô, Realengo, aquele abraço!”.
Ali, sentada em uma cadeira reclinável, aproveitando a manhã idílica na Praia do Leblon, eu sentia o sol esquentar minha pele quase toda nua. O biquíni minúsculo só cobria o essencial. E era assim que eu gostava, uma liberdade do corpo que se equiparava à liberdade da minha alma.
Olhei para o mar através dos meus óculos escuros, pensando em como era lindo. O Rio era um espetáculo para os olhos e os sentidos. Pena toda aquela violência em volta da cidade, em cada canto inesperado. Isso tirava um pouco do encanto.
Era ainda bem cedo. A praia apenas começava a encher. Quando chegasse umas onze horas da manhã, eu ia embora. Mesmo com o protetor, o sol ficava implacável naquela hora e eu já não tinha idade para me expor daquele jeito. 32 anos. Ainda jovem. Mas ao mesmo tempo, madura o suficiente para fazer o possível para evitar novas ruguinhas.
Suspirei, sem querer pensar em idade. Era uma mulher bonita e que gostava de se cuidar, com uma vaidade saudável. Talvez só um pouquinho exagerada. Nunca dispensava a academia, cremes, tratamentos estéticos na clínica que eu tinha em sociedade com Isabel. O resultado era que as pessoas se surpreendiam quando sabiam que eu era mãe de Greg, um rapaz de 14 anos e com mais de um metro e setenta e cinco de altura.
Senti saudades dele. Há um ano, tínhamos ido passar as férias com minha irmã, Enrico e Inácio, nos EUA. Foi tudo maravilhoso. Agora resolveram visitar a Suíça e nos convidaram, mas preferi ficar, cuidar da clínica, ter um tempo só meu. Greg tinha viajado com eles e ficaria um mês fora.
Eu o amava com loucura. Mesmo quando fiquei grávida e sozinha, sem saber o que passaríamos na vida, eu nunca pensei em me desfazer dele. Sempre foi uma parte de mim, a melhor e mais linda. Desde o momento que se formava em minha barriga até o dia em que me despedi dele no aeroporto para viajar com minha irmã, o amor foi incondicional. Único. Era e sempre seria.
Passei os dedos dos pés sobre a areia fina e morna, ainda olhando para o mar, imersa em pensamentos. Eu me indagava se algum dia sentiria por algum homem um amor que chegasse perto daquele. Como eu via Isabel e Enrico sentindo um pelo outro.
Não era doce nem romântica como minha irmã. Nem devia me incomodar com aquelas coisas. Afinal, sempre fui independente e soube que ninguém mandaria em mim. Nas relações que tive, nunca perdi a cabeça. Eram os homens que se apaixonavam por mim e não o contrário. Eles vinham e passavam. Eu me divertia, curtia, seguia. Simples assim.
Um certo incômodo começou a me espezinhar por dentro. Na verdade, não era tão divertido assim. Nem tão simples. A cada dia que passava, eu me preocupava um pouco mais comigo. Com a minha vida. Com coisas que guardava somente para mim e apenas duas vezes tive coragem de falar abertamente. Nem Isabel, que além de irmã era minha melhor amiga, tinha ideia do que me afetava.
Parei com os pés sobre a areia, sentindo vontade de me mexer, sair dali, fazer algo com urgência. Mas nem sabia o quê. Era uma necessidade que crescia, uma ânsia que me irritava. Ainda mais no decorrer daquele ano, quando meus pais voltaram a se aproximar da gente.
Fiquei dos meus 18 aos meus 31 anos sem vê-los. Desde que saí de casa, grávida e rebelde, escorraçada por eles, eu jurei nunca mais me aproximar. Mas a vida amansava a gente. E Isabel ... ela e Enrico me convenceram a ser mais maleável, a deixar o passado para trás.
Tinha jantado com eles na casa da minha irmã. Tentativas de aproximação cautelosas foram feitas, tanto da minha parte quanto da parte dos meus pais. Na verdade, foram três encontros familiares naquele ano, inclusive com minha irmã mais velha, Ruth. Ainda não gostava dela nem ela de mim. Mas nos suportamos sem brigas.
Felizmente, não tocamos em assuntos religiosos. Não discutimos. Mas eu temia que ainda fosse o que eles queriam fazer.
O que eu sentia, era que aquelas pessoas ainda eram estranhas a mim. Era meu pai, minha mãe, minha irmã. E ainda assim, pessoas que passaram 13 anos longe da minha vida. Que pensavam diferente de mim. Alguma coisa tinha nos afastado tanto, mas tanto, que parecia impossível um novo elo se formar. Afinal, acho que ele nunca existiu.
Isabel era mais mansa, mais amorosa, menos rancorosa. Para ela foi mais fácil. Seu sorriso era verdadeiro com nossos pais. Sua felicidade era completa. A minha ... continuava daquele jeito. Desconfiada. Suspensa.
No fundo, eu ainda os culpava. O jeito que nos criaram, as proibições, as desavenças, tudo me marcou muito mais do que eu poderia confessar. Sentia ódio por me deixar afetar tanto. E depois de anos lutando contra tanta coisa que me fazia mal, finalmente começava a me preocupar e admitir que precisava de ajuda.
Suspirei, irritada. Tentei esquecer aquelas coisas, relaxar, aproveitar a minha manhã. Foi quando vi um grupo de rapazes saindo do mar com suas pranchas, os cinco chamativos, daqueles tipos sarados e bronzeados que faziam qualquer mulher suspirar.
Surfistas. Tinha um monte por ali e eu nunca me fazia de rogada em dar umas paqueradas. Gostava de joguinhos de sedução, de atrair e me sentir atraída, de papos bobos e sorrisos sexys. Por isso dei uma boa apreciada neles através dos meus óculos escuros.
Dois pareciam ter mais de trinta anos. Os outros estavam na casa dos vinte. Passaram rindo, falando alto de uma onda que derrubou alguns deles, distraídos naquela macheza que eu achava tão atraente. Não entendia como os homens podiam ser tão gostosos, apesar da maioria ser também tola. Incapazes de realmente compreender uma mulher.
Percebi que me deram olhadas e sorrisos. Um deles tinha um sorriso tão lindo, que me vi quase sorrindo de volta sem nem perceber. Lamentei que parecesse o mais novo deles, talvez uns vinte e cinco anos. Em geral eu não tinha preconceito, mas sempre esperava que um homem mais velho e experiente fosse me dar aquele algo que nunca nenhum deles deu.
Olhava para mim também.
Dei uma boa admirada nele. Um gato! Alto, sarado, abdome tanquinho, braços e pernas torneados de músculos na medida certa. O cabelo castanho escuro estava úmido e desarrumado, curto, mas cheio. Os olhos eram escuros e com algo doce, quente, como café. Lamentei quando passou por mim, seu olhar penetrante, parecendo me correr inteira.
Sentaram na areia, um pouco atrás da minha cadeira. Ouvi seus movimentos e suas vozes, o modo como enfiavam as pranchas na areia e continuavam falando de ondas. Surfistas! Homens!
Tentei me concentrar em outras coisas. Até consegui, percebendo um cara gostoso mais a frente, de uns quarenta anos. Ao mesmo tempo, me distraía sem saber se aceitaria um convite para sair naquela noite, de uma paquera que tinha conhecido em um bar, na semana anterior. Estava sozinha no Rio de Janeiro. Seria um pecado não aproveitar.
Afastei aquela palavra da mente, fazendo uma careta. Pecado! Se eu pudesse, excluiria do dicionário. Tinha ouvido tanto durante a minha vida que a achava sem sentido, vazia, oportunista. Assim como Paraíso e Inferno. Ninguém tinha que me dizer o que eu podia ou não fazer. Ponto final.
Já estava quase me levantando para ir embora, quando a voz de um dos rapazes atrás de mim chamou minha atenção:
— E aí, Dom, vai transar muito hoje? — ele parecia se divertir e rir, emendando: — Vai ser com homem ou mulher? Ou com os dois?
Os outros riram. Um deles completou:
— Dom é o cara que mais faz gente gozar nesse mundo!
— É meu trabalho. — Uma voz grossa, levemente divertida, respondeu. — Não estou transando, Albertinho. Estou trabalhando.
— Queria um trabalho desses!
— E eu! Meter a mão em mulheres o dia todo! Acariciar os peitinhos ... porra! Pra que fui estudar Engenharia?
Eles riram. Eu fiquei curiosa, mas não olhei para trás. O assunto tinha chamado minha atenção. Como assim? Com homens e mulheres? Que trabalho era aquele? Algum garoto de programa?
— Pior é ele ter que meter as mãos em homens! Isso não é comigo! — Outro foi bem eloquente.
Começaram a falar e debochar do colega, que parecia rir com tranquilidade e não se ofender com as brincadeiras.
Tive vontade de olhar para trás, saber qual deles era o tal de Dom. Nome engraçado. Seria um diminutivo de Domingos? Dominique? Ou um Dom daqueles de BDSM?
Apurei os ouvidos. Uma frase não saía da minha cabeça: “Dom é o cara que mais faz gente gozar nesse mundo”.
Gozar.
Cenas minhas, íntimas, com homens diferentes, vieram à minha mente. Eu gostava de sexo. Era saudável. Ficava lubrificada e excitada. Mas no final, sempre era a mesma coisa. Aqueles pensamentos, aquela culpa sem sentido. A sensação de decepção.
Tentei saber mais de Dom, entender aquela conversa. Estava atenta, agora sem prestar mais atenção a nada a não ser as vozes atrás de mim.
— Sou apenas um terapeuta. Não sei por que vocês complicam tanto.
Aquela voz grossa de novo. Dom não era garoto de programa. Era terapeuta. Mas que terapia era aquela, transando com as pessoas?
Mexi-me na cadeira e, sem aguentar, dei uma leve olhada para trás. Fiquei surpresa ao ver que Dom, o terapeuta safadinho, era o gato de uns vinte e cinco anos que tinha chamado minha atenção. Ele estava sentado na areia e explicava aos colegas:
— Já atendi homens e mulheres em várias situações. Vítimas de abusos e transtornos sexuais, com problemas para tingir orgasmos, envergonhados de suas relações sexuais e por aí vai. Não transei com eles. Eu os orientei.
Voltei a olhar para frente, suas palavras mexendo comigo.
— Ah, vai! Terapia ... sei!
Os colegas continuaram com as implicâncias.
Logo eles mudaram de assunto, mas eu não parava de pensar naquilo. Sabia de tratamentos psicológicos e tal. Nada envolvendo sexo, tendo que tocar nos pacientes. Aquilo era novo pra mim.
De vez em quando, olhava de relance para eles. Um ou outro pareceu perceber e começou a me paquerar. Na verdade, eu mal os notei, concentrando-me em Dom. Como um rapaz tão jovem podia saber tanto de sexo, a ponto de ajudar pessoas com disfunções?
Quando ele se levantou e se despediu dos amigos, enfiando sua prancha embaixo do braço, eu rapidamente peguei minha bolsa, meus chinelos e minha cadeira de praia. Fechei e, sem vestir a saída de praia, fui atrás dele pela areia fofa.
Um de seus amigos me elogiou. Outro me chamou. Ignorei. Fixei meu olhar nas costas largas e musculosas de Dom. Reparei como sua postura era ereta e como a bermuda úmida se colava em seu traseiro lindo.
Não quis me distrair com sua aparência sexy. Apressei o passo e, antes que ele chegasse ao calçadão, eu estava ao seu lado e o chamava:
— Dom ...
Parou na hora e voltou aqueles quentes olhos escuros para mim. Curioso, interessado, levemente surpreso. Sua boca era linda demais, carnuda. Era todo grande, másculo, viril. Impossível não se distrair observando tanta coisa atraente em um homem só.
— Estava ouvindo nossa conversa?
Aquela voz grossa completava o quadro gostoso.
Não corei nem me envergonhei. Pelo contrário, gostei de saber que ele tinha notado que eu estava perto dele e de seus amigos.
Levantei os óculos escuros para o alto da cabeça, nossos olhares se fixando de imediato.
Não havia como disfarçar a atração ali. Dom reparava em mim, tanto quanto eu reparava nele. Mas não tinha sido isso que me levou até ali e fui direto ao ponto:
— Ouvi tudo e me interessei. Como faço para ser uma de suas pacientes?
Ele sorriu.
E lá fui eu me distraindo de novo com tanta beleza.


           Capítulo 2

DOM

Ela era linda.
Percebi assim que a vi, recostada em sua cadeira, os cachos sexys de seu cabelo se enroscando pelos ombros, o corpo perfeitamente escultural, a pele macia e bronzeada. Era daquelas mulheres que faziam um homem virar a cabeça, quando passavam. O tipo que parecia saber ser sensual.
Estava surpreso com suas palavras e, por um momento, apenas a observei. Era bom em notar sinais. E já tinha lidado muito com pessoas com transtornos sexuais, para saber que o assunto incomodava. Mas aquela mulher ali parecia bem firme e decidida, seu olhar penetrando o meu.
Cheguei a pensar se não seria uma espécie de cantada. Mas não me precipitei em meus julgamentos e perguntei:
— Por que quer ser minha paciente?
Pela primeira vez, ela vacilou um pouco. Piscou, se mexeu suavemente. Sua voz meio rouca foi sincera:
— Tenho algumas ... dificuldades.
— Sabe exatamente como é o meu trabalho?
— Não.
Sorri, gostando de seu jeito meio intempestivo. Outra pessoa em seu lugar poderia estar um tanto envergonhada.
— Você é uma espécie de terapeuta sexual. É psicólogo? — Seu olhar me sondou, como se indagasse qual seria minha experiência.
— Não. Sou terapeuta no Centro Metamorfose.
— O que é isso?
 Era meio complicado ficar ali, parado na areia, olhando aquela mulher linda e falando de trabalho. Seus seios redondos e firmes dentro do sutiã branco e minúsculo, estavam me distraindo. Como não era minha paciente ainda, pensei em simplesmente convidá-la para beber alguma coisa. Podíamos terminar na cama e eu explicaria a ela como funcionava meus métodos, demonstrando tudo com prazer.
Talvez meu olhar a tenha alertado. Ou quem sabe sentiu meu desejo, o tesão que crescia. Foi bem direta:
— Você é um gato. Reparei assim que saiu da água. Não gosto muito de caras mais novos, mas não diria não para você.
Meu sorriso se ampliou. Antes que eu dissesse algo, continuou:
—Talvez, no final de tudo, a gente até transe. Mas vou te falar a verdade, Dom. Estou meio cansada de ir pra cama de um cara gostoso, cheia de tesão. E no final, sair decepcionada. Pior: a culpa nem é deles. Entendi que o problema está comigo. Então, vamos deixar essa parte de sexo de fora e focar na terapia. Quero que me ajude no meu problema. Como profissional. Ouvi dizer para seus amigos que não transa com seus pacientes. Então, faz o quê?
— Você não gosta de perder tempo. Qual o seu nome?
— Rebeca.
— Rebeca. — Repeti, cada vez mais interessado. Calmamente indaguei: — Você nunca teve um orgasmo?
— Nunca. Quero dizer, acho que não.
— Se não sabe, é por que não teve.
Pela primeira vez, vi que vacilou. Pareceu mais frágil e mais raivosa. Como se aquilo a irritasse profundamente.
— Não tem nada de errado comigo fisicamente. O problema é aqui.
Apontou para sua cabeça.
— Achei que era besteira e resolveria sozinha. Cheguei a contar para dois caras com quem saí e que se tornaram mais íntimos. Se esforçaram para me ajudar, mas nada adiantou. Como é essa terapia?
— No centro, trabalhamos com o método Deva Nishok. O objetivo do centro é a expansão da sexualidade humana através do tantra. Talvez aqui não seja o local ideal para explicar como tudo funciona, mas resumidamente, os terapeutas fazem diversos cursos e se especializam em meditações e massagens, fazem um estudo sério sobre sexualidade, prazer e orgasmo. Não é sexo em si nem teorias vazias. O objetivo é despertar a energia, alcançando todos os estados de consciência, buscando um amadurecimento físico e emocional. Uma espécie de reeducação sensorial, até alcançar uma qualidade de prazer até então desconhecida.
Eu observei como prestava atenção. Tentei ser mais específico:
— São sessões. Não transo com você, não tenho orgasmo. São massagens e meditações vibracionais com o objetivo de fazer você ter benefícios que vão muito além da vida sexual. Tudo direcionado a você, ao que precisa.
— Entendi. E isso é algo clandestino?
— Não. — Eu ri. — Tudo é perfeitamente autorizado e com técnicas comprovadas. O tantra não é algo novo. Vem sendo aperfeiçoado no decorrer do tempo. Por que não entra no site e dá uma espiada? Lá explicamos tudo. Tem muitos terapeutas, a formação de cada um. Pode escolher quem quiser.
— Você está lá também?
— Estou. Não trouxe meu celular, mas posso te passar meu número. Se quiser fazer a massagem e me escolher ... — Sorri e vi como se concentrou ainda mais em mim — É só entrar em contato e marcamos uma sessão em uma das unidades.
— Já escolhi você, Dom.
Rebeca mexeu na bolsa e sacou seu celular. Depois me encarou:
— Vou ver esse site e te ligo. Qual o seu número?
Eu falei. Fiquei um pouco decepcionado por ter que me portar só como terapeuta, quando seria um prazer ser mais íntimo dela. Mas não fui egoísta. Sabia como transtornos sexuais prejudicavam a vida de uma pessoa. E ela foi bem franca em admitir isso.
— Obrigada.
Seus olhos eram levemente puxados nos cantos, de um tom bonito de mel. Os cílios longos. Tudo nela era sensual, feminino, atraente.
Nós nos fitamos e acenei com a cabeça.
— Espero você me ligar, Rebeca.
— Eu vou. Até mais, Dom.
Se despediu e me deu as costas, seguindo para o calçadão.
Foi impossível não reparar naqueles cachos balançando, em tons com algumas luzes. Na curva acentuada da cintura. Na bunda empinada e firme, dentro de um fio dental. No rebolar sensual.
Suspirei e passei a mão no cabelo. Tinha sido um tolo.
Se eu a pegasse, a faria gozar sem precisar de terapia. Com minha experiência, com desejo, com a visão de sexo que eu tinha atualmente.
Uma coisa tinha aprendido. A só ir para cama com mulheres que mexiam comigo. Aquelas que tinham tudo para serem especiais. E algo me dizia que com Rebeca seria assim.
Ela se foi. E segui meu caminho.
Que acontecesse do melhor jeito para ela.



Capítulo 3

REBECA

Eu dirigia meu carro em direção à Barra da Tijuca.
Ainda não acreditava que estava realmente fazendo aquilo. Por isso me sentia um tanto ansiosa, cheia de dúvidas, com medo de me meter em alguma enrascada. Mesmo assim, nunca fui de recuar sem pagar para ver.
Tinha me preparado como se fosse para um encontro amoroso. Tomei banho, me depilei, usei meu melhor hidratante, me maquiei, caprichei em cremes de cabelo e usei uma roupa legal, sensual sem ser vulgar. Camisa branca de botões que modelavam os seios, saia justa e preta, saltos. Estava pronta. Para encontrar Dom. Para a minha primeira terapia.
Quando estacionei o carro e desci, em frente a um prédio baixo na Av. das Américas, respirei fundo. Cheguei a cogitar que tudo aquilo era loucura. Era apenas sexo disfarçado e eu estava ali para pagar por prazer. Não havia garantias de nada. Tudo que li naquele site, nas palavras de amor e renascimento, podiam ser apenas disfarces. Eram muitas promessas. Isso era fácil. Eu queria ver na prática.
Comecei a caminhar até a entrada do prédio, decidida a não desistir sem conferir antes. Claro que eu estava desconfiada. Mas não ia saber se não tentasse.
Subi no elevador até o segundo andar e me deparei com um corredor longo, que seguia pela direita e pela esquerda. As paredes eram brancas, tudo muito limpo, várias portas de um lado. Do outro, a visão para fora do prédio e um pequeno jardim.
Era um dia bonito, com brisa suave, sol ameno.
Observei a numeração das portas e segui até a que Dom tinha me indicado, por nossa conversa no WhatsApp. Parei em frente à porta de madeira e, sem querer me confundir em mais dúvidas, toquei a campainha com uma determinação que não era muito real.
Quando a porta foi aberta e meus olhos encontraram os dele, tão escuros e intensos, eu senti o coração bater forte demais no peito. Não sei se foi pela presença dele, tão alto e lindo, ou pelo nervosismo que crescia. Por certo as duas coisas.
— Rebeca. Bem-vinda.
Sua voz era como uma carícia.
Não me movi. Tive vontade de rir de mim, pois era muito mais leve e divertida do que me sentia ali. Mas não conseguia relaxar.
Dom sorriu e meu coração daquela vez quase despencou. Estava acostumada com homens bonitos, mas ele tinha algo especial, quente, como se pudesse me enxergar bem no fundo, com atenção.
— Entre.
Parecia saber como eu me sentia em relação a tudo e estava sendo delicado comigo.
— Quase desisti. – Afirmei, entrando até uma pequena sala com sofá azul e uma manta colorida em cima.
Olhei rapidamente em volta. Era aconchegante, tapetes de listras no chão, paredes claras, uma luz suave. A um canto, mesa de vidro com flores e com imagens de deuses hindus.
Fiz o possível para não ficar tensa quando Dom fechou a porta e se aproximou. Eu me virei e o olhei, reparando que estava à vontade com jeans, uma blusa branca de linho e descalço. Parecia ainda mais bronzeado e com olhar brilhante. Os cabelos escuros se encontravam mais arrumados do que da última vez que o vi, na praia. Eram de um castanho quase chocolate. Como seus olhos.
— Não fique nervosa. Deve ter visto no site que nosso método é totalmente profissional. Venha aqui.
Dom abriu outra porta e aí entramos em uma sala maior e linda. As paredes tinham um tom amarelo suave. A iluminação deixava tudo meio dourado, como a manta em uma poltrona e os frisos de almofadas na cadeira em frente. A cortina era branca, mas pesada, fechando a janela até o chão. O ar condicionado estava ligado e a temperatura era perfeita.
O meu olhar foi direto para o principal. No chão havia um grande colchão, coberto por um manto branco que parecia infinitamente macio. Perto, na parede, um nicho com óleos, um pequeno baú e mais uma imagem hindu. Pelo que eu tinha lido, deitaria ali para que a massagem fosse feita. Eu completamente nua.
— Sente um pouco, Rebeca.
Dom me indicou a poltrona e sentou na cadeira, sem deixar de me observar. Sorriu e disse baixo:
— É normal ficar ansiosa. Mas garanto que vai gostar da massagem, relaxar. Por que não conversamos um pouco?
Sentei, deixei minha bolsa no chão, cruzei as pernas. Tentei me soltar um pouco.
Ele pegou uma pasta e pôs no colo. Segurou uma caneta e explicou:
— Vou fazer uma ficha pra você. Se importa de me dizer sua idade?
— 32 anos.
Dom começou a fazer perguntas amenas, sobre o que eu trabalhava, meus hobbies, etc. Aos poucos, fui ficando mais tranquila. A gente chegou a comentar nosso gosto em comum por praias e caminhadas. Quando indagou se eu tinha filhos e tinha sido casada, eu respondi.
— Foi mãe bem jovem.
— Sim, 18 anos.
— Isso tem algo a ver com a sua dificuldade em ter orgasmos?
Seus olhos estavam nos meus. Era desconfortável falar sobre aquilo. Tinha me calado por muito tempo, tentado resolver sozinha. Mas, de alguma maneira, senti confiança nele.
— Não exatamente. Acho que o problema está na minha criação.
E expliquei como eram as coisas na minha casa, até eu sair dela, grávida e expulsa por meu pai. Dom ouviu quieto, sem anotar nada, só me observando. Parecia notar mais do que eu dizia.
— Pelo que me diz, você se excita, tem lubrificação e desejo sexual. Não há dor na hora da relação. O que ocorre é a anorgasmia, provavelmente devido ao modo como enxergou a sexualidade desde cedo, como algo proibido e até sujo.
— Nunca quis enxergar assim. Mas ...
Eu me calei de repente. Remexi-me, um tanto envergonhada, pois o que eu ia dizer era ridículo. Mas precisava ser sincera, se queria que aquilo tudo desse certo.
— Eu sempre vou pra cama com um homem dizendo a mim mesma que vai ser bom, que vou gozar. Busco meu prazer. Mas algo trava dentro de mim. Toda vez que eu começo a realmente relaxar e me entregar, eu ...
Sacudi a cabeça, vergonha me inundando.
— Não vou julgar você. Pode falar, Rebeca.
— Eu vejo meu pai. Não com conotação sexual. Eu o vejo com ódio, com ódio de mim. Como se afirmasse que vou para o inferno.
Quando confessei, foi como se um peso imenso saísse dos meus ombros. Já tinha falado aquilo com uma psicóloga, ela disse que era apenas meu cérebro tentando me castigar. Mas ali foi diferente.
Dom era homem e logo ia me tocar. Eu me sentia atraída por ele. Era quase como se eu confessasse a verdade a um amante. Embora eu soubesse que ali ele era apenas terapeuta.
— Isso não é motivo para culpa, Rebeca. É até previsível, levando em conta como foi criada. — Sua voz era grossa, mas tinha algo terno, que parecia me acalmar. Seus olhos me faziam pensar em coisas quentes. Café, chocolate, sexo.
Freei meus pensamentos. Sua voz me envolveu novamente:
— A nossa sociedade vê sexo como algo que remete ao pecado. Muitas criações podem ser repressoras e deixar marcas desde a infância. Não se conversa sobre sexo de forma saudável com os filhos. E algumas famílias exageram em conservadorismo. Cultura e religião podam o ser humano desde cedo. E o resultado é que ele acaba se sabotando vida a fora. Mesmo quando não aceita e se revolta, como você. Mas já foi modelada, uma parte sua não acredita realmente que tenha direito ao prazer. Como se você se condenasse, de modo subconsciente.
Eu sabia que era aquilo, que Dom tinha razão. Acenei com cabeça, pois já tinha tido muito tempo para analisar, inclusive tentei terapia.
— Compreendo isso, mas mesmo assim, não consigo me libertar. É muito mais forte que eu. Uma prisão. Meus pais, sem saber, conseguiram me prender. Fui para longe deles, mas aquela maluquice toda ficou em mim.
— Por pouco tempo. Vai se livrar dela.
A certeza com que falou, mexeu comigo. Continuou:
— O método do Centro, que utilizamos aqui, é fruto de uma pesquisa de mais de 20 anos. O objetivo das massagens e das meditações é desprogramar essas memórias viciadas que afetam sua vida.
— Através do sexo? Por que não pode negar que tem sexo.
Dom percebeu que fui meio agressiva. Talvez por vergonha do que confessei, talvez por receio, por não entender ao certo o que viria. Mas ele não se alterou.
— Não é sexo, Rebeca. Não haverá finalização sexual, não vou transar com você. O nosso objetivo é aumentar a sensibilidade corporal e sua percepção de si mesma, através do toque, dos sentidos, para que suas disfunções sexuais possam ser diluídas em função de algo muito maior. Com as massagens, passamos por fases diferentes. A massagem yoni desenvolve o tônus muscular da vagina, desperta aspectos bioelétricos do corpo. Sua sensibilidade aumenta, você se desliga de antigos padrões, de falsos pudores. Vai perceber que o orgasmo é muito além dos genitais, envolvem todo o corpo. É terapêutico e voltado para o autoconhecimento.
Eu fiquei calada, ainda sem conseguir ter noção de tudo aquilo. Mas Dom me garantiu com tranquilidade:
— Aqui a minha preocupação é toda com você. Estou preparado para as suas necessidades, somente suas. Entendeu?
Acenei, embora ainda cheia de dúvidas. Dom sorriu.
— Não se preocupe, é normal não entender direito. Vai compreender melhor quando a massagem tiver acabado. Você lembra dos meus amigos na praia, debochando de mim? Para eles, como para todo mundo, eu sou quase que um garoto de programa e vivo fazendo sexo. Até minha mãe acha isso.
— Jura?
Acabei sorrindo e ele continuou:
— Quando eu expliquei com o que trabalhava, ela até chorou achando que era prostituição. Implorou que eu saísse, pediu que eu não contasse a ninguém. Tentei explicar, inclusive que atendo homens e mulheres, mas foi pior. Quis saber se eu era homossexual.
Parecia achar divertido ali, mas imaginei que devia ter sido complicado para ele.
— Mas agora ela aceita?
— Meio a contragosto, como meus amigos. Não tenho vergonha, pelo contrário. Tenho orgulho do meu trabalho. Eu fazia faculdade de fisioterapia, mas tive que trancar quando meu pai morreu e precisei arcar com a família. Nesta época, soube do curso, me matriculei e cá estou eu.
Sorrimos um para o outro. Eu estava muito mais relaxada, como se um vínculo tivesse se estabelecido entre a gente. Confiava em Dom. Estava até ansiosa para saber como me sentiria ao final daquilo tudo.
— Tem diversos tipos de massagens e de meditação. Para cada caso, escolhemos um. Eu acredito que você precise começar com calma, talvez umas duas ou três sessões. Nem sempre a primeira vez resolve um caso de bloqueio. Tudo vai depender da maneira que conseguir relaxar e confiar, Rebeca.
— Está bem.
— Pronta?
— Sim.
— Precisa ir ao banheiro? Quando começarmos, não é bom interromper para nada.
— Não, estou bem.
Dom acenou e apontou para um cabideiro a um canto.
— Pode deixar sua bolsa e suas roupas ali.
— A roupa toda?
— Sim. E depois se sente no centro do colchão.
Eu o olhei, nervosa. Mas me levantei e fui pendurar minha bolsa.
Quando comecei a desabotoar minha blusa, percebi que Dom tinha fechado os olhos e estava concentrado, como se meditasse.
Era tudo novo, diferente. Eu só me despia para um homem se fosse para a cama com ele. E embora nunca tivesse ficado com vergonha de ficar nua, ali eu senti certo constrangimento.
Quando não tinha mais nada cobrindo minha pele, segui para o colchão macio e me sentei. Suspirei alto e não disse nada. Nunca me senti tão exposta.
O silêncio reinou na sala. Apenas uns minutos depois, vi com o rabo do olho que ele se levantava e colocava uma suave música relaxante. Quando veio em minha direção, nossos olhos se encontraram e prendi a respiração.
Dom foi se sentando na minha frente, sem parar de me encarar, sério.
Por um momento, senti uma excitação deliciosa subir por meu corpo, arrepiar meus mamilos, envolver minha pele. Quis abrir as pernas e o puxar para mim. Sentir seu beijo. Esquecer aquela história de terapia e me dar por inteiro. Ele me atraía demais!
Meu coração voltava a se agitar. Cheguei a pensar que era aquilo mesmo que aconteceria, que aquele papo dele de não transar comigo era conversa fiada. Mas sua voz baixa apenas ordenou:
— Tente relaxar, as pernas dobradas, a coluna reta. Escolha um dos meus olhos e se fixe nele. Procure limpar sua mente de preocupações, concentre-se no meu olho, no seu corpo, em si.
Fiz como falou. Estávamos muito perto, sozinhos, nossas respirações se misturando. Olhos fixos. Eu escolhi o esquerdo e mirei nele, meu corpo ainda formigando. Totalmente nua. Dom vestido.
No início, foi difícil relaxar. Estava consciente demais do meu corpo, dos meus sentidos. Do perfume gostoso e másculo que vinha dele. Da sua beleza. Do desejo que circulava no meu âmago. Queria que começasse logo e suas mãos grandes tocassem minha pele.
No entanto, aos poucos, fui relaxando. A música suave, a respiração cadenciada, o olho dele. Percebia como havia raios um pouco mais claros, em meio a escuridão marrom da sua íris. Depois, me concentrei no brilho. Por fim, eu parecia mergulhada ali, entre luz e sombra, sem conseguir pensar em mais nada a não ser naquele olhar.
Não sei quanto tempo durou. Pareceu uma eternidade. Até sua voz baixa penetrar meu pensamento:
— Deite-se devagar, no meio do colchão. Abra um pouco as pernas e feche os olhos. Procure não abri-los, pois assim vai perceber melhor as sensações do seu corpo e não se distrair.
Obedeci. Enquanto fechava os olhos e me deitava, imaginei se estaria finalmente olhando para meu corpo nu.
O colchão era muito suave, como se fosse feito de penas. Quando as mãos de Dom seguraram meus tornozelos e abriram um pouco mais as minhas pernas, estremeci e uma ansiedade perturbadora me invadiu. Quase o olhei. Mas me contive a tempo.
Fui surpreendida. Não massageou minha pele com firmeza. Pelo contrário, senti somente as pontas de seus dedos percorrerem meus pés, tão suaves e furtivas que eram como pequenos sopros. Gostei imediatamente do efeito e me concentrei nele.
De início, dividi minha atenção entre aquele toque tão leve subindo dos meus pés ao tornozelo, com o que Dom devia estar pensando. Estaria concentrado? Ou notando meu corpo, minhas formas? Uma parte minha queria só se concentrar, mas outra se distraía, pouco acostumada com tudo aquilo.
Era como se borboletas pousassem na minha pele. Circulando, subindo, criando energia ali. Estava cada vez mais estimulada, encantada. Nunca tinha imaginado que algo tão suave fosse tão poderoso. E sensações completamente novas passaram a me envolver.
Minhas pernas pareciam carregadas de eletricidade. Estranhamente, era como se Dom não me tocasse mais e fagulhas elétricas saíssem de suas mãos para minha pele. Subissem pelas laterais dos meus quadris, percorressem lentamente minha barriga ao redor do umbigo.
Respirei forte, impressionada, querendo abrir os olhos e ver como aquilo funcionava. Mas tive medo de me distrair, de perder aquela delícia toda. Nunca tinha sido acarinhada daquela maneira, formigando, meus músculos respondendo em espasmos leves. Tudo aquilo e a música foram me deixando meio grogue, cada vez mais relaxada.
Os toques subiram. Meu tórax, entre os seios, meus ombros. Foram aos braços. Senti as pontas de seus dedos em meus dedos, como se me passagem energia pura, pulsante, hipnotizadora. E ao mesmo tempo em que tudo era encantadoramente leve, parecia me encher toda, da cabeça aos pés.
Eu estava serena, como nunca fiquei na vida. Pequenos arrepios vinham na minha pele, percorrendo-a, enrijecendo meus mamilos.
Seus toques voltaram aos meus ombros. Ansiei em quase êxtase que passassem em meus mamilos, mas os contornaram naquela leveza toda. Desceram por minha barriga. Brincaram na minha cintura. Eu tinha virado uma massa trêmula sem nem me dar conta de como aquilo tinha sido fácil e possível.
Minha mente tentou achar explicações. Revi tantos momentos me tocando, deixando homens me tocarem, nunca daquele jeito. Como tanta delicadeza podia mexer tão fundo dentro de mim?
O relaxamento, a energia, tudo se tornava maior. Quando os dedos foram para o baixo ventre, eu me excitei demais, ansiei por toques em minha vagina totalmente depilada. Podia jurar que estava úmida, pois esquentava, ansiava.
Soltei um gemido sem querer, quando as pontas dos dedos longos apenas passaram sobre a vagina, em cima e dos lados dos lábios vaginais. Estremeci, embriagada por sensações, pela energia vibrante que se concentrou ali.
Dom não parou. Voltou a subir. Seus dedos resvalaram em meus mamilos e novo gemido veio, mesmo que eu nem me desse conta. Eu soltava o ar pelos lábios entreabertos, toda formigando, toda acesa. Senti que tocava minha face, passava suavemente em minha boca, virava devagar meu rosto para o lado. Então, seus toques se concentraram em meu pescoço, descendo até perto da nuca. Ali foi um pouco mais firme, seus dedos entranharam e massagearam meu cabelo e senti um leve sopro em minha face. Como se ele estivesse muito perto e mandasse mais energia para mim.
Pensei que fosse explodir. Gemi. Apertei as mãos em punho, mexi meu quadril. Senti algo extraordinário dentro de mim, por fora, em todo lugar. Não conseguia conter aquilo que circulava e pulsava, terno e potente, como se uma droga tivesse sido injetada em meu organismo.
— Vire de bruços.
A voz de Dom, baixa e rouca, perto do meu ouvido, me fez estremecer. Soltou meu cabelo e quase supliquei para que voltasse. Não demorei e me virei.
Gemi quando tocou novamente minha cabeça. Acariciou meus cachos, desceu os dedos com ternura, deixou os fios caírem para o lado até expor minha nuca. Ali, tocou daquele modo furtivo, só as pontas dos dedos, descendo bem devagar por minhas costas.
Achei que paraíso não existia. Mas ali, foi como se eu fosse levada a um lugar único, nunca antes visitado por mim. Eu me sentia leve, solta, flutuando em céu azul e nuvens brancas. Era o paraíso. E os sussurros incoerentes que eu dava, era minha resposta às delícias experimentadas pela primeira vez sob aquelas mãos.
Delirei. Os toques arrepiavam e enchiam minha pele de energia. Braços, mãos, pulsos, cotovelos, ombros, omoplatas, costas, cintura, quadris, pernas, parte detrás dos joelhos, até os pés. Tudo fervia, se eriçava, se juntava aquele amontoado de sensações que eu havia me transformado.
Seus dedos percorreram minha bunda, apenas resvalaram perto do meu sexo e eu já me sentia completamente melada e entregue. Surpresa, abandonada.
Quando os dedos voltaram a massagear meu cabelo perto da orelha e da nuca, Dom passou a dar leves assopros no pescoço, descendo para as costas. Sentia o calor do corpo dele, sem que encostasse em mim além de suas mãos. Gemidos lentos, quase miados, escapavam dos meus lábios.
O mais impressionante é que todo meu corpo reagia junto. Pele, cabelo, músculos, sentidos, seios, vagina, ventre, coração e mente. Eu me misturava toda, enaltecida, acarinhada, tocada como nunca fui por ninguém.
Dom sussurrou, pedindo que eu virasse de novo de barriga para cima. Eu o fiz, lânguida, quase implorando que me tocasse mais intimamente, que acariciasse meus mamilos, que me levasse além daquela magnitude toda. Não abria os olhos, ansiosa por sentir mais e mais emoções.
Daquela vez, ele intercalou os toques suaves com assopros, em locais diferentes. Eu me derretia e liquidificava, mole, quente, ardente. Quando as palmas desceram e roçaram meus mamilos duros, minha vagina se convulsionou. Gemi dolorida, pois parou de me tocar. Senti que se afastava.
Ia abrir os olhos, ver o que fazia. Mas estava maravilhada e não me permitia sair daquele transe delicioso. Escutei leves ruídos e alguns eu identifiquei. Como se colocasse luvas, uma tampa sendo aberta. Assim como fez ao segurar minhas pernas e abri-las um pouco mais, expondo-me. Perdi o ar. Esperei, em suspenso. Mas nada tinha me preparado para o que se seguiu.
Ele começou a massagem Yoni, como eu tinha visto no site. A massagem vaginal.
Senti seus dedos enluvados e com óleo perfumado. Foram para as virilhas e ali tocaram com mais firmeza do que tinha feito até então, causando-me um choque de sentidos. A massagem foi lenta, criando um estímulo imediato no meu sexo, que pareceu se espalhar por tudo em mim.
Sussurrei algo e nem sei o quê. Arquejei pelo modo como seus dedos pareciam me conhecer tão bem, indo e vindo, causando excitação em cada nervo do meu corpo. Minha vagina escorria. Ainda mais quando os toques foram se aproximando do centro, indo pelos grandes lábios até os pequenos, aquecendo tudo.
Meu sangue correu rápido. Eu parecia me quebrar em mil pedaços minúsculos. Minhas pernas se contraíam, minha respiração se tornava ofegante, sentia sensações diversas, vontade de sorrir, de chorar, de gemer. Não conseguia definir tudo aquilo.
Os dedos foram ficando mais íntimos. Não me penetraram, mas me tocaram por fora e no meio, onde eu despejava lubrificação. Aproveitou-a para subir com um dedo só, fazendo um movimento como se chamasse alguém, mas de baixo para cima em meu clitóris. Ondas de puro prazer me percorreram e gemi alto.
Abri as pernas trêmulas, perdi o controle dos meus quadris. Comecei a sentir que algo em mim ia se romper. Não acreditei que pudesse ser tão fácil, sem beijos, sem transa, tão macio e suave. Naquele momento, minha mente lutou, como a tentar recuperar o controle. Eu me dividi em duas e senti o desespero vir, pois sabia que me sabotaria novamente. Quando a imagem severa do meu pai surgiu em minha mente, eu choraminguei, sentindo medo, vergonha, raiva.
Eu sabia que o tinha decepcionado. Quase podia ouvir suas condenações. A voz da minha mãe se juntou a dele. Eu rodava, querendo voltar só para as sensações que Dom despertava em mim, quase chorando pela minha mente perversa e traiçoeira. Rosnei, furiosa.
— Solte a voz. Faça o que quiser.
Ouvi-o falar baixo, ao mesmo tempo que se tornava mais firme e massageava meu clitóris daquele jeito diferente, tirando-o do prepúcio com movimentos de vai e vem com o dedo. Sempre me esfreguei ao me masturbar e os homens também. Mas assim era muito mais prazeroso, dava pequenos choques.
Lutei entre o prazer, a vontade imensa de me entregar, e o costume de me sentir culpada e envergonhada. Soube que não conseguiria. Apesar de delirar, esquentar, sacudir em sensações e energias muito fortes, eu ainda pensava. Eu via e ouvia meu pai. Eu me condenava.
— Solte-se.
Dom ordenou e, naquele momento, fez uma mágica. Penetrou apenas metade do seu dedo do meio em mim e pressionou para cima, em uma massagem que pareceu descobrir algum ponto secreto no meu corpo. Com a outra mão, continuou a massagear meu clitóris daquele jeito especial.
Berrei de repente, sem controle. Não sei de onde veio, mas um clarão de energia parecia ter me atravessado. Foi tão forte, tão intenso e surpreendente, que ergui o tronco, sentando, me contorcendo. Meio que fugi, abalada demais, mas ele não me soltou, acompanhou, se tornou mais e mais insistente.
Fui a um limite nunca antes transportado. Estremeci, gritei de novo, tão alto que nem reconheci aquela voz como minha. Caí para trás, ondulando, minha mente rodopiando, até que a imagem do meu pai sumia, se desvanecia e eu parecia um ser solto no universo, só eu, flutuando, girando. Gritei mais, comecei a chorar.
De repente, meu corpo explodiu em uma sensação única. Não entendi, minha mente sentia o prazer tão intensamente quanto meu corpo. Foi como se me partisse em duas, em uma experiência completa, única, maravilhosa. Meus membros ficaram pesados, minha vagina se contraiu em espasmos, eu me apertei, sacudi, sentei de novo.
Chorei e ri. Pela primeira vez na minha vida, não consegui segurar nada em mim. Tudo se tornou livre. E enquanto ondas e ondas me varriam, naquela plenitude toda, Dom me massageou mais e mais, até que eu gritava de novo e de novo, sentindo jatos saírem de mim.
Pela primeira vez na vida, eu entendi o que era gozo.
E gozei até cair mole e sentir seus dedos saindo lentamente, deixando-me.
Mantive os olhos fechados, mas lágrimas desciam deles. Ainda assim, eu sorria. Tinha conseguido.

♡♡♡

Estava arrumada, pronta, sentada novamente na poltrona de frente para Dom. Fitava seus olhos, maravilhada, encantada, agradecida.
Estava sem palavras. Não havia em mim vergonha. Nem medo. Eu me sentia mulher, completa, fêmea. Linda. Pronta para mim mesma, para a felicidade, para o mundo.
— Obrigada.
Murmurei. Ele sorriu lentamente, seus olhos brilhando muito. Fiquei emocionada.
— Você disse que talvez eu precisasse de uma ou mais sessões ... mas ... foi tão completo, tão perfeito! Nem dá para acreditar que foi tão fácil!
— Cada pessoa reage de uma maneira, Rebeca. Em alguns casos, no final, usamos um vibrador clitoriano. Mas nem foi preciso com você.
— Eu ... estou curada?
— Apenas a conduzi. Seu corpo, você, buscaram o prazer. Liberte-se. Permita-se. Você pode tudo.
Eu não conseguia acreditar que tinha mesmo conseguido. Foi uma experiência maravilhosa. Nunca senti tanto prazer na minha vida. Além do orgasmo, desde o começo, foi tudo diferente.
Soube que eu poderia voltar ali. Passar por tudo de novo. Ganhar mais e mais experiência, certeza de mim mesma como mulher. Mas minha mente ... essa parecia querer mais. Eu olhava para Dom e imaginava como seria ir completamente para a cama com ele, como amante.
Fitei seus lábios, reagi com desejo, com vontade de ser dele.
Não tive coragem de falar, pois tinha certeza que me recebia como profissional, independente da atração que pudesse sentir por mim. E agora eu entendia seu trabalho. Murmurei:
— Você não salva só corpos. Salva almas.
— Eu fico feliz em ver seu prazer, sua libertação.
Nós nos fitamos bem nos olhos.
E ali eu decidi que não poderia mais continuar nas consultas. Não pelo fato de ter tido orgasmo. Mas enquanto eu fosse cliente dele ali, nada rolaria entre a gente.
Sorri para ele.
Tinha seu telefone. Sabia onde gostava de surfar. A próxima vez que nos encontrássemos, eu seria apenas uma mulher e ele um homem.
Uma emoção forte me dominou, ansiedade veio junto. Pela primeira vez na vida, eu cedia o controle, eu parava de temer me entregar.
Eu queria me dar por inteiro para Dom. E que ele se entregasse para mim. Queria ver aonde tudo aquilo ia dar.
Senti felicidade.
Tinha descoberto meu paraíso. Agora ninguém me tiraria de lá.

FIM.


Obs: 
Sussurros no Paraiso foi criado na época do lançamento do livro Pecadora. 
Ele é um conto único e não possuirá continuação.